O encontro do acaso

Por vezes tenho a sensação que o meu mundo vive completamente à parte de tudo e todos. Fecho-me na minha concha, nos meus pensamentos, no que me vai acontecendo no dia-a-dia e sinto-me totalmente afastada dos outros, até daqueles que fazem parte da minha vida. E o meu mundo (e o teu) basta-me para ser feliz. Não o faço de propósito, não me afasto porque me apetece, mas dou por mim a viver só para o imaginário que me povoa. Filmes. Faço tantos, realizo outros e imagino tudo o que me faz feliz. Traço os meus objectivos a curto e a médio prazo. Constato que este ano foi o mais alucinado da minha vida. Tantas coisas aconteceram e de forma tão constante e com uma cadência ritmada. Chego à conclusão que nada acontece por acaso. Sinto que estou a crescer e que muitas vezes há quem não queira ver isso. Gostavam que continuasse pequenina, sem vontade própria ou sem esta mania de lutar por tudo aquilo que quero e acredito. Não sei ser de outra forma. Quando se sabe o que se quer, não há volta a dar. E eu já sei há muito tempo.

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Cheira a Lisboa

Lisboa. Merece um passeio pelas ruas estreitas e ariscas do Bairro Alto, agora ao final da tarde. Apetece passear pelo Chiado e ficar à conversa numa esplanada ou a ler um livro. A traçar mais planos para o futuro. Não um muito adiantado, um pequeno, curto no tempo para não cansar muito. Para não criar demasiada ansiedade. A espera mata-me. Passo metade da vida à espera, porque a outra metade acontece. Mas tenho de esperar, que remédio. Não depende de mim mudar tudo de repente, mudar o mundo e saltar para fora dele num instante. Aguento-me. A cabeça não dorme. Gira como giram os girassóis, ou a Terra à volta do Sol. É  quase espontâneo. Parece. Não é. É tudo meticulosamente pensado pela física e ninguém perguntou aos astros se gostavam de girar.

Com a cabeça nas nuvens

Aqui fica um dos textos do curso de Escrita Criativa. O que vão ler foi escrito em escassos minutos, na aula. Deram-nos apenas o título. Escrevemos a partir do nada, sem trabalhar os arquétipos mentais, a história ou os personagens. Fui escrevendo à deriva e saiu isto.

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Há dias assim. Sentada na esplanada do café do Chiado, Maria estava profundamente baralhada. Mais uma vez questionava-se se tinha, ou não, feito asneira da grossa ao interferir tão abruptamente na vida de alguém que não conhecia. Havia algum tempo que as relações com os outros não corriam bem. O trabalho em excesso também nao ajudava, o afastamento do pai que emigrara para a Guiné Bissau e a perda da sua amiga Constança vítima de uma doença, que veio sem sinais de aviso, deixaram-na sem norte e com pouca vontade de continuar, em Lisboa. Os outros cansavam-na. Não tinha paciência para as conversas de circunstância da redacção, para a rotina do dia-a-dia com aquela cadência previsível do tic-tac de um relógio. Andava esgotada, mas faltava-lhe coragem para mudar de vida, essa era a parte mais difícil. Esperava ansiosamente o feed-back de um jornal independente no Cambodja, mas quanto mais pensava nisso mais a resposta tardava a chegar. Por momentos quando se entregava aos pensamentos imaginava-se numa pequena casa de madeira, pintada de branco à beira do grande lago, Tonie Sap, tendo como única vizinhança a vegetação densa e os arrozais a perder de vista.

Maria não era uma mulher propriamente bonita, mas tinha charme. Segura no seu metro e noventa e no seu corpo lânguido e esguio não deixava ninguém indiferente à sua passagem nas ruas de Lisboa. Os seus cabelos longos e loiros contrastavam com os olhos grandes, escuros e brilhantes que transbordavam uma curiosidade genuína. Não era uma pessoa comum. E não fosse ser jornalista muitas vezes poderia ter ouvido o que não queria durante as muitas questões frenéticas que colocava. Parecia que andava sempre com a cabeça nas nuvens mas era decidida e corajosa. Parecia mais louca do que era na realidade. Quando assentava os pés firmes no chão e finalmente sabia o que queria ía em frente e arrastava o mundo dentro dela. Trabalhava bastante e até altas horas e pouco estava em casa. Recusava-se a viver sozinha. Pelo menos ali. Não se adaptava, sobretudo depois de o Francisco ter saído do apartamento de duas assoalhadas em pleno coração do Chiado, após uma relação quase eterna de oito anos. E era também por não conseguir estar só que saía quase todas as noites para vaguear por aí. Nunca lhe apetecia mas acabava sempre por conhecer alguém pela noite dentro e, de forma quase inconsciente, buscava a inspiração nesses seres noctívagos para uma das suas crónicas ou para ganhar coragem para emigrar de vez.

Naquele dia estava mesmo angustiada. Enquanto bebia o terceiro café pensava em que mais uma vez se tinha metido num imbróglio daqueles de faca e alguidar e martirizava-se por não conseguir ficar indiferente aos outros. Mas para Maria tudo era uma questão de justiça, não passava disso. Entusiasta e sedutora tinha facilidade em fazer amigos naquele prédio e de idealizar filmes a cores. Pensou no que tinha acontecido na véspera. E dessa vez, como chegou mais cedo a casa e os barulhos estavam cada vez mais próximos e tendo a certeza absoluta que o marido da vizinha do 3ºB, o homem que usava sempre fraque, era violento ligou à Polícia Judiciária do esquadrão X a avisar que um crime se poderia dar – tal era a gritaria, entre marido e mulher, que lhe ecoava no quarto andar. E a polícia chegou passadas 2 horas e a tragédia deu-se. Não sobrou ninguém para contar o ocorrido.

 Um eléctrico amarelo apitou. Maria ao pousar a chávena reconstitui a história e apercebe-se que não tem tempo a perder. Naquele instante deixa de se lamentar da vida sentindo um alívio enorme. Reconcilia-se com o seu destino em apenas um segundo. Corre para casa. Faz as malas, decidida. Telefona à melhor amiga para lhe vender o apartamento e o carro, encaixota a bicicleta e vai para o aeroporto. Finalmente abre o seu coração a uma nova vida e parte rumo ao Cambodja.

O coração tem um relógio

Os nossos relógios estão sintonizados em fm. Já há muito tempo que compreendi isso, aliás desde o primeiro dia quando os nossos olhos se cruzaram. Isto há coisas. Não sei se vou embrulhar o destino nisto, se o reencontro dos corações, mas nunca na vida me aconteceu uma destas. O curioso é que os relógios batem da mesma forma ritmada que os corações, apenas com uma diferença. Aos relógios temos de lhes dar corda ou pilha e aos corações não precisamos de fazer nada. Os batimentos são alheios à nossa vontade, são muito além do que se possa imaginar e duram para lá do impensável.

O tempo

Não gosto do tempo por aí além, mas gosto do que fica dele. Normalmente ficam as boas lembranças, as memórias embrulhadas em gavetas ou papéis de jornal com mofo. Ficam algumas palavras proferidas com entusiasmo, o mínimo de verdade ou respeito. Algum projecto ambicioso ou um sucesso garantido. Não é por acaso que quando nos afastamos no tempo ficam sempre as coisas que são de guardar, as positivas. Mas por vezes, a indiferença também fica e é mais chato. Quando não nos conseguimos lembrar de nada bom, é terrível. Quando só temos vontade de dar a fuga para um novo mundo é por que tivemos tempo demais a adiar o inadiável e a consumir cada neurónio com jornais gastos, com coisa nenhuma. O tempo que fica e o que resta dele. Aproveitar cada instante e mudá-lo. É tudo demasiado simples, como a serigrafia que vou levar para o meu novo escritório.

O mundo a girar

Este é o primeiro post do blog. Não se pretende atingir a perfeição, mas tão somente escrever o que se passa nos mundos. Se em tempos o meu blog Fragmentos caía no intimismo e no diário secreto, eis que agora se pretende um blog ainda mais arejado, livre de preconceitos, de situações demasiado pessoais ou conhecidas. Este espaço quer ser uma extensão da minha cabeça de forma livre e descomplexada, será uma parte de mim mas passível de ser visível por todos os que me rodeiam. Sejam bem-vindos a mais uma aventura. E o mundo continua a girar…